O Primeiro Lagarto

A história do teiú foi assim. Sabe Teiú, aquele lagarto gordo e grande que existe pelo Brasil afora? Pois lá vínhamos nós, em 1994, pela estrada entre Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu, no meu Kadett. É uma estrada no meio do mato, naquela época mal asfaltada e cheia de curvas. De repente numa curva vejo o bichão, no meio da rua, arrastando-se para longe do acostamento onde um grupo de pessoas o esperava com pau na mão. Nem deu para pensar, encostei o carro bem pertinho dele, abri a porta, peguei-o pelo rabo e passei pra trás, pro colo da minha filhinha de 12 anos. Graças a Deus ela não estranhou o bicho, abriu a tampa de trás e o colocou no porta-malas. Seguimos viagem meio assustados, meio excitados e… o que fazer agora?! Qdo chegamos na obra confesso que fiquei com medo de abrir o porta-malas e o bicho voar em cima da gente! Gabriela que não estava com medo abriu e pegou o bicho pela nuca (lagarto tem nuca?). Ele abria a boca com uma expressão bem zangada. Os operários se aproximaram com mil histórias terríveis sobre o comportamento desse animal: rabo fortíssimo que corta pernas, mandíbulas cheias de dentes pontiagudos, doença de pele… Mas nas mãos da menina percebemos que o coitado não conseguia mexer as pernas de trás! Provavelmente resultado de uma paulada ou atropelamento. Bem, diante dessa constatação nossa relação mudou completamente!
De um temível Tiranossauro Rex passou a um bichinho indefeso e machucado.
O teiú não podia andar direito, morreria se o soltássemos no mato então decidimos levá-lo a um veterinário em SP. Encontrei um especialista que depois de examiná-lo e medicá-lo anunciou que o lagarto era UMA lagarta, logo batizada de Francisca. Ela morou conosco durante uns meses no apartamento do décimo-terceiro andar, com tratamento vip: fisioterapia nas pernas de trás e comidinha na boca. Seus pratos prediletos eram carne de galinha cozida e ovo cru.
Pra quem não sabe, a língua comprida dos teiús não serve só para comer. É um instrumento para cheirar e reconhecer as coisas, por isso um dia Noenio chegou do trabalho e me encontrou deitada no chão “conversando” com Francisca. Ela esticava a língua pra mim e eu pra ela. Tenho certeza que fizemos contato!!! Ele achou a cena muito pitoresca pois até hoje conta e todos riam muito. Sinceramente… meu objetivo ali era puramente científico!
Então, com comidinha na boca, conversas de língua e sem predadores em volta, Francisca passou a ter uma convivência tranquila conosco. Gostava de ficar no colo assistindo tv ou arrastava-se pelo apartamento procurando lugares baixos e escuros como embaixo do sofá ou atrás de uma cômoda onde ficava horas, provavelmente dormindo.
Mas um dia tive de tomar uma decisão difícil, íamos viajar e ela não poderia ir conosco. Além do mais é proibido manter animais silvestres em cativeiro.
Uma coisa me angustiava. O problema nas pernas traseiras com frequência a deixavam de barriga para cima e só com nossa ajuda ela conseguia desvirar-se. Mesmo assim resolvi entregá-la a um zoológico. Escolhi um pequeno e arrumadinho perto de casa, o Parque das Hortências, em Taboão da Serra. Ela foi para um espaço aberto com outros lagartos (mal encarados, devo dizer) mas eram da mesma espécie, certamente ficaria bem. Umas semanas depois quando voltamos da viagem fui ao zoo preocupadíssima para ver como ela estava. Me debrucei sobre o murinho do tanque e de repente a vi, entre umas pedras, de barriga para cima!!! Indecisa, sem saber o que fazer, foi com a torcida dos meninos que corriam por ali que pulei pra dentro do tanque e desvirei minha Francisca. Mas, para minha decepção, ela não pareceu me reconhecer. Nada, nem um olhar, uma saudade, um sinal. Nada de nada.
Por isso pude voltar pra casa, preocupada sim mas sem sofrimento. De qualquer maneira ela não caberia na minha bolsa.
Publicado em Memória Fragmentada | Marcado com | 2 Comentários

Unintentional Art

UNINTENTIONAL ART

ferrugem sob tinta

ferrugem sob tinta

A arte não-intencional, ao meu ver, pode ser reconhecida em duas manifestações: a que se apresenta tal e qual a natureza lhe confere e é reconhecida como sublime pelo observador, e a que, pela ação espontânea do homem, deixa rastros identificáveis e manipuláveis.

Não coloco neste ensaio as teorias pitagóricas sobre a harmonia da natureza, a “nautilus pompilius,” “razão de ouro,” “chifre de Amon” etc. Me refiro aqui às deformações e modificações sofridas por todas as coisas pelo tempo ou agentes externos, naturais ou não, que são para o observador uma fonte artística. A partir dela ele intervém, simplesmente registrando e documentando a imagem, ou manipulando-a como matéria-prima.

Ver imagens em: http://www.flickr.com/photos/milimagens/sets/72157635317140548/

Publicado em Curtas | Marcado com | 2 Comentários

Chamam de Chopi – talvez eu o chame de Chopin

Image

Chamam de Chopi, Maria-Preta, Pássaro-Preto, Graúna mas o caso é que este passarinho apareceu do nada ciscando insetos na grama do meu jardim, de lá para meu ombro e assim ficamos uma semana, ele empoleirado em mim e eu alimentando o bichinho no bico como se filhote fosse. Não sei de onde veio, de quem era, para onde o destino o levará mas uma vez adotada como mãe tive de aceitar este encargo. Com eficiência, que é meu modo de assumir responsabilidades.

Image

Nas duas primeiras noites dormiu sentadinho na borda de uma cesta de pão, em cima da geladeira. Mãe selosa e ainda insegura, achei melhor protegê-lo dentro da casa. Entretando, passando os dias e vendo-o voar pra cá e pra lá com desenvoltura e relacionando-se bem com os outros pássaros, deixei que ele mesmo decidisse onde passar a noite. Ao entardecer, voando para meu ombro para receber a última refeição do dia, despedia-se voando para a árvore mais próxima sem voltar mais. Até o dia seguinte.

Image

É só eu sair de casa ao acordar e lançar uns beijos no espaço que ele aparece, um par de asas pretas direto na minha direção, agarrando-se aos cabelos ou pousando desajeitadamente no meu ombro. E entramos em casa. Entro devagar pois sei que não gosta dessa passagem do claro para o escuro, do aberto para o apertado. Então, se devagar, ele continua pousado mas ainda assim com as penas baixadas bem lisinhas junto ao corpo, e os olhos pretos arregalados.

Maria-Preta Comida

Vamos para a cozinha onde dou no seu bico pedaços de pão molhado. Ele bate as asas e pia como filhote mas é adulto, o mimado. Entro na dele até o papo ficar cheio. Pão com água é o que gosta mais com alpistes intercalados às refeições principais. Banana nem tanto, come mas relutando desconfiado. Prefere neste caso mamão. Aí o levo para o jardim onde espalho alpiste e canjiquinha pelo muro onde todos vão comer juntos naquela hierarquia incompreensível, rolinhas em continência afastando pardais, bem-te-vis assustando canários-da-terra e pássaros-pretos disputando entre si o melhor grão.

Image

Numa tijela com água minha Maria-Preta toma banho. Primeiro experimenta a profundidade. Vai com um pezinho esticado até encostar no fundo e certificar-se que é seguro. Tenta uma, duas vezes, até ter certeza. Então entra e começa o banho espirrando água pra todo lado, claramente divertindo-se bastante. Findo o banho, hora de secar-se ao sol. Sai da banheira um pássaro lamentável, magro e desajeitado, penas desalinhadas, pescoço fino e comprido. Em volta da tijela tudo molhado. Então passa o bico pena por pena, sacudindo-se, desequilibrando-se, num balé cômico!

Image

Mais tarde, já seco e cansado de tantas atividades, senta-se no meu braço e ali se acomoda fazendo-se em bolinha macia, fecha os olhos e dorme, leve e entregue aos meus cuidados. Eu, comovida com tamanha confiança, permaneço imóvel acessando meu computador com um só mão para não perturbar-lhe o sono. É uma soneca curta. Em alguns minutos desperta e o levo para fora para onde voa e some. Até ficar com fome e voltar pro colo da mãe.

Image

Publicado em Contos | Marcado com , , | Deixe um comentário

#3

Dobrei o tronco magro e jovem de um Eucalipto para alcançar as folhas e amassei algumas na minha mão. O cheiro abriu uma passagem no tempo e me jogou que nem um raio de luz no passado. Queria perpetuar a sensação inebriante que me encharcava como chuva mas a viagem só acontecia na primeira inspiração. As seguintes resumiam-se num leve e agradável perfume. A mágica durava pouco.

Publicado em Curtas | Deixe um comentário

#1

Foram incontáveis as madrugadas que passou acordada ouvindo o galo cantar. A morte trágica de seu filho caçula queimava-lhe as entranhas noite a dentro, e até o final dos seus dias qualquer cocoricó de algum galo distante lhe despertava a lembrança daquela dor. Quando faleceu aos 101 anos já havia se passado mais de meio século desde o desaparecimento de seu anjinho de 5 anos, porém a dor manteve-se aguda até o fim, e falar daquele dia fatídico ainda lhe brotava lágrimas aos olhos cinzentos.

Publicado em Curtas | Deixe um comentário

2012

Todo ano eu procuro uma imagem para enviar aos meus amigos e familiares que transmita esperança e otimismo.
Ontem, descendo o caminho em direção à praia, encontrei o que procurava!
Feliz 2012!
Publicado em Do jeito que eu sei | 2 Comentários

Meu pai e a música na colina

Há dois meses foi diagnosticado que meu pai está com câncer. Um câncer agressivo que já se espalhou para os ossos. Quando minha mãe me ligou pedindo que fosse vê-los sabia que havia algo muito errado. Eles não são de telefonar pedindo alguma coisa.

Explico: por opção viveram anos longe da família. Primeiro, durante 18 anos, numa fazenda em Mato Grosso, e depois, desde 1996, na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais onde fizeram muitos amigos e admiradores. Foi ali que ele deu início a uma idéia rapidamente aceita pelos moradores e visitantes: música clássica ao ar livre nas tardes de sábado.

Do alto de uma colina onde fica a singela capela de São Francisco de Paula, uma caixa de som espalha música pela cidade atraindo curiosos e turistas. A vista sobre o centro antigo da cidade com suas casas coloniais e a bela matriz branca e amarela é emoldurada pela Serra de São José, como uma onda petrificada alta e comprida que protege todo o lado oeste da cidade.

Serra de São José e o centro histórico de Tiradentes

Portanto, há uns 4 anos, todos os sábados, eles saem de casa com os discos e o som, e se dirigem para a capela com as chaves emprestadas pelo padre. São eles que abrem as portas e permitem que o público conheça a pequena construção e suas pinturas internas. Minha mãe varre o chão de tábuas cheio de folhas secas que entram pelas aberturas das janelas altas, e meu pai acende as luzes convidando os curiosos a entrar.
Numa pequena sala lateral buscam os equipamentos de som e carregam tudo para o gramado bem de frente para a igreja da Matriz de Santo Antônio e o centro histórico, a parte mais bonita da cidade de Tiradentes. Senhores prestativos e atentos logo se oferecem para ajudar no deslocamento do material, e em pouco tempo tudo fica pronto para  o “concerto.”

capela São Francisco de Paula

As pessoas se aproximam e se deitam no gramado curtindo as melodias e a vista. Quantos não vieram depois abraçar e agradecer meus pais pela linda iniciativa! Quantos não choraram… ou disseram ter sido o momento mais sublime de suas vidas?!!!

Então meu pai perdeu as forças e não conseguiu mais colocar a música para a cidade ouvir. Seus amigos o substituíram nos primeiros sábados deste ano para não deixar o programa comentado na Revista Quatro Rodas, no Bom Dia Brasil e outras revistas, acabar. Foi quando minha mãe me telefonou. Há semanas ele não comia quase nada, e de repente a única coisa que conseguia levar a boca eram pedaços de gelo! Fiz minha mala, coloquei minha viralata no carro e fui para Tiradentes.
Encontrei meu pai no pior estado que eu poderia supor. Deitado, completamente sem forças, mal falando, com dores, desnutrido e desidratado. Minhas irmãs vieram e decidimos levá-lo ao hospital da cidade vizinha, mas ali as coisas não melhoraram. O soro ajudou, sem dúvida, mas os problemas continuavam, e o pior, sem um diagnóstico. Obviamente era algo muito sério, mas o que exatamente?

Fomos para São Paulo. Levamos 8 horas para percorrer 500 quilômetros, direto para o hospital. O médico já o esperava. Constatada uma desidratação aguda foi rapidamente colocado no soro e deu-se início a medicação. Ele ficou no hospital um mês. Chegou de cadeira de rodas e foi para casa andando! Mas com um terrível diagnóstico: câncer e metástase.

Está medicado e tentando levar uma vida normal. Cada dia tem de vencer sua inapetência, seus enjôos, várias apatias e desconfortos, mas luta, não quer deixar minha mãe sozinha. Há dois sábados voltou a colocar a música na colina.

Meu pai tem conquistado demonstrações de agradecimento e consideração que muitas pessoas chegando ao fim da vida nunca tiveram a oportunidade de receber. Não que ele não as tenha merecido ainda antes da música. Como pediatra dedicado e estudioso, minucioso e inteligente, salvou muitas crianças que lhe chegaram às mãos, erroneamente diagnosticadas. Mães que ainda hoje lhe telefonam ou visitam, conscientes do quanto seu trabalho lhes poupou uma tragédia.
Não foram poucas as vezes que as pequenas pacientes lhe visitaram na colina, agora mulheres maduras com seus próprios filhos. Um bom médico a gente nunca esquece.

vista sobre o centro histórico

Ele chegou aos 84 anos vencendo a diabetes desenvolvida após uma infecção no pâncreas aos 50, uma cirurgia de coração aos 78 e agora esta doença feroz. Sabemos que sua volta será breve, mas que seja intensa e confortável.

A música continuará pelas mãos de seus amigos.

Publicado em Do jeito que eu sei | Marcado com , , , , , | 2 Comentários