A geladeira e o urubu

Eu já não dormira bem de noite com tanta coisa na cabeça. Não queria esquecer nada e ficava passando de trás pra frente todos itens dessa lista imaginária. Iríamos viajar bem cedo para a casa de praia e sabia de antemão que nem tudo caberia no carro, algumas coisas ficariam para trás para minha filha e meu genro levarem depois. Por isso acordei antes das seis e depois de arrumarmos as crianças, desci para a garagem com as malas e as compras tentando encaixar tudo pois além das cadeirinhas das crianças havia a babá e o cachorro! Aproveitando espaços até debaixo dos bancos afinal consegui colocar o essencial no carro. Partimos.

A viagem não foi longa, 127 km por ruas com pouco movimento, duas horas de distância. Quando subimos a rampa do terreno para estacionar o carro já sentia a vontade de trocar de roupa e enfiar uns chinelos nos pés. A faxineira tinha aberto a casa e estava terminando a limpeza da sala. Íamos tirando as coisas do carro enquanto as crianças corriam em direção aos brinquedos gritando de alegria à medida que os pegavam nas mãos. Enquanto permaneciam ocupadas reconhecendo cada um deles e checando-lhes as cores e formas, fui para a cozinha arrumar as compras geladas. O calor da manhã pedia urgência.

Abri uma das geladeiras para checar quanto tinha de espaço livre ali. Nem deu tempo pois estranhei a porta meio quente e, atropelando as ideias, passei a mão numa prateleira para checar a temperatura. E dali para o congelador, em cima. Quente, era um ar quente que circulava por toda a geladeira, de cima a baixo. O ventilador estava funcionando sem gelar jorrando um bafo de boi podre por toda a cozinha! E que bafo! Era um fedor indescritível! Em minutos a cozinha estava cheia de moscas alucinadas e eu mais ainda arrancando tudo ali de dentro e jogando em sacos de lixo abertos pelo chão. E pra lá iam postas de bacalhau da Noruega, trutas de Itamonte, Pirarucu da Amazonia, picanha da Frioboi, lasanha da Sadia… aquele cheiro nojento que não saía mais de dentro da mim… as moscas desesperadas zunindo nas minhas orelhas… a incredulidade com a situação inesperada… e a provável impunidade da empresa de energia elétrica. Eu tinha certeza que houvera uma queda de luz, comum na região, e eu arcaria com o prejuízo sozinha.

Nem colocando um saco dentro do outro, e dali para dentro do latão de lixo o cheiro pareceu diminuir. Levei o latão para o outro lado do jardim e voltei para a casa, precisava guardar as compras geladas o mais rápido possível. Enquanto arrumava as coisas digitava o nome da empresa no navegador do celular atrás de uma assistência técnica. O sinal estava fraco, mal rodava e o site não abria. E quando abriu era uma sequencia de perguntas, preenchimento de cadastro, senha… Meu ódio começou a se transformar numa grande nuvem negra sobre meu discernimento. Não conseguia acreditar que uma empresa deste porte poderia elaborar um site apenas para clientes óbvios: os com internet banda larga, tendo às mãos o caderninho de cadastros e senhas de quatro anos atrás! Se precisar disto disque Um, se precisar daquilo disque Dois, se desejar tal coisa disque Três, ou se for aquilo outro disque Quatro, e assim em diante até o infinito pois de repente vc já não sabe o que está procurando e volta para o menu anterior! Por que simplesmente não atende um ser humano com a pergunta, “boa tarde, em que posso lhe ajudar?” Em nenhum momento o criador do site levantou a hipótese de receber a ligação de um cliente numa cidadezinha afastada do centro, com uma conexão de internet ruim, querendo ajuda urgente e sem o caderninho de senhas e cadastros à mão! Sim, nós existimos, senhores.

Desisti da empresa. Site só com o cadastro, a senha e o nome de usuário, detalhes que minha memória já fedorenta e muito estressada não conseguia lembrar.

Ainda apertando as coisas pela segunda geladeira para fazer caber tudo que trouxera entre as coisas que ali estavam tive a ideia de colocar meu problema no grupo de vizinhos no Whatsapp. Não demorou muito alguns me mandaram nomes de técnicos conhecidos da região. E consegui um que viria logo mais, em pleno sábado, da cidade vizinha!

Já tínhamos chegado há quase três horas. As crianças estavam dominadas pela babá e a faxineira de modo que pude me concentrar no caso da geladeira. Lavei-a toda! Tirei todas as prateleiras, tampas, encaixes, bandejas e gavetas. Passei detergente, esponja, enxaguei e coloquei para secar ao sol. Mas o cheiro ainda parecia o mesmo. Ou era do latão de lixo? Até a geladeira vizinha parecia exalar o fedor das carnes apodrecidas.

Bem, por fim o técnico chegou e depois de examinar o aparelho, retirou o relé defeituoso substituindo-o por um novo, e a geladeira voltou a gelar! Foi um alívio encontrar espaço para guardar tudo. O relé deve ter-lhe custado 15 reais mas eu paguei feliz quase 20 vezes esse valor pois era sábado e entre chamá-lo e ter a geladeira em ordem, passou-se menos de uma hora.

Nem com pó de café e carvão vegetal dentro da geladeira o cheiro diminuiu. Foi o passar das horas que resolveu o assunto se bem que de vez em quando ainda me ronda aquele fedor, por uma fração de segundo, talvez vagando pela memória recente.

Mas a história não terminou aqui. Tivemos um Gran Finale, pois jogar comida fora é de doer o coração. E foi aí que a natureza, sábia, me mandou um mensageiro. Ouvi da cozinha o farfalhar de asas, e sempre atenta a ruídos imprevisíveis, fui ver o que era. No muro, sentado com toda sua imponência, um grande urubu preto vinha visitar minha casa. Não se assustou com minha presença mas manteve uma distância segura deslocando-se em passos nem tão graciosos pelo estacionamento em direção ao latão de lixo. A tampa não permitia que chegasse aos sacos então fui devagar até lá e abri a tampa. Retirei os sacos pesados com muita repugnância, e sem respirar mas convencida de estar fazendo o certo, espalhei o conteúdo pelo cimentado. As moscas imediatamente pipocaram de todos os lados avançando com sofreguidão sobre as carnes podres. E o urubu veio examinar o belo buffet assim que entrei novamente em casa. Arrancou plásticos, estraçalhou papelão, deu cabo de alguns restos de carne morta. Enquanto o bicho comia liguei para meu marido que estava prestes a chegar para avisá-lo que ao subir a rampa o fizesse com muito cuidado pois no final dela havia um urubu distraído.

E chegando de mansinho, manobrou com cuidado para não assustar o bicho que deu uma recuada, sem porém, deixar a comida. Só mais tarde quando foi embora voltei ali para catar do chão os restos da aventura gastronômica. O cachorro aproveitou para cheirar o local e quase, por muito pouco, não consigo evitar que deitasse em cima daquele fedor, esfregando-se feliz nos restos de uma geladeira pifada!

 

 

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Protegido: Viagem à China – Maio 2004

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CARNE

Não vou ser cínica, eu como carne de boi, frango, porco. Cada dia que passa me incomoda mais abrir a geladeira e pegar aquele pedaço de bicho para cozinhar mas ainda não consegui deixar de comer carne. O que me angustia é a maneira como matam esses animais, na maior crueldade! Me disseram que batem a cabeça dos porcos no chão para abatê-los! Os pintinhos machos são triturados vivos em máquina! As galinhas poedeiras sofrem a vida inteira confinadas em gaiolas minúsculas onde mal ficam de pé. Provavelmente nunca deixaremos de comer carne e ovos mas tudo poderia ser feito com cuidado e maior atenção ao sofrimento dos animais.
DEVERIA HAVER LEIS SEVERAS REGULAMENTANDO TODOS FRIGORÍFICOS E GRANJAS !

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Dona Renata foi às compras

Dona Renata chegou em casa pensando em fazer sorvete de côco. Tinha na cabeça a lista dos ingredientes. Antes porém, precisava descer com o cão que estava preso na varanda desde a manhã. Como ia a pé até o supermercado e os dias não estão nada fáceis mesmo na companhia de um cachorro, decidiu levar o cartão do banco num bolso e o celular no outro, evitando bolsa e volumes chamativos. Desceram então de elevador e saíram do prédio, a cadela já cheirando todos os murinhos e postes pelo caminho.

Perfazendo na mente passo a passo a receita, foi descendo a ladeira animada com a noite promissora em frente a tv, com filme e sorvete. Beleza!

Tirou o celular do bolso, ia aproveitar a caminhada e pagar uma amiga a quem devia 150 reais, e assim fez, em poucos minutos o dinheiro foi transferido e ela guardou o aparelho no bolso satisfeita com a tecnologia que lhe poupava tempo.

No supermercado deixou a cadela amarrada junto aos carrinhos, num guarda-corpo afastado o suficiente para evitar encontros desastrosos com crianças ou pessoas distraídas. E para evitar que um maluco lhe roubasse o animal, enrolou o saco plástico para recolher as necessidades do bicho no ferrolho da guia. E entrou.

Dirigiu-se direto às prateleiras dos cremes e leites condensados, depois os ovos, o coco ralado e os leites de coco. Não resistiu aos mates enfileirados e pegou uma garrafa de um litro e meio para refrigerar assim que chegasse em casa. Ainda passou os olhos nas batatas fritas, nos iogurtes, nas novidades como farinhas de cores e texturas diferentes mas resistiu à tudo e seguiu para a caixa.

Enfilerou-se logo na primeira mas depois percebeu que havia outra mais vazia e se dirigiu para lá. Antes porém que o comprador da frente encerrasse suas compras foi sacando do bolso um cartão azul… do Metrô carioca?! Ficou olhando sem entender. Vasculhou os outros, mas ali só tinha o celular descansando no bolso de trás e as chaves do apartamento no bolso da frente. Colocaram as compras na bancada vazia do lado enquanto a madame distraída fosse em casa buscar o outro cartão. Já sentindo a preguiça de subir toda a General Glicério novamente para descer de novo, e subir outra vez com as compras, lá foi Dona Renata, suspirando, buscar a cadela que aguardava sentada sem se dar conta da mudança de humor de sua dona.

Subiram pacientemente a rua. E depois a outra mais acima. Desta vez a cadela ficou em casa pois já estava de língua de fora. Com doze anos completados dia 7 de Julho a coitadinha cansava depressa. Madame pegou o cartão do banco e desceu de novo para a rua. Foi andando convencendo-se que estava tudo bem, pequenos problemas assim acontecem todos os dias com todo mundo, não seria um probleminha tão pequeno a estragar-lhe o dia!

Rindo de si mesma, condescendente, entrou no supermercado e antes de ir ao caixa foi buscar umas frutas, laranja da Bahia e Ponkãs, para matar uma fomezinha amiga que andava a lhe cutucar as vontades. Com as frutas ensacadas foi ao caixa. De longe já localizara os ingredientes que esperavam na bancada vazia.

Desta vez a Lei de Murphy desafiou as estatísticas e a fila andou depressa. Rapidamente passaram pelo leitor ótico as frutas e os ingredientes do sorvete, e tudo iria bem se a moça não tivesse dado um Enter nas tangerinas ponkãs como Laranjas da Bahia. O “seu” Rai teve de vir dar um jeito. Com a conta fechada madame sacou o cartão do banco para pagar e seguir os planos do final de tarde. Enfiou na máquina e digitou a senha, tic tic tic tic tic tic.

No visor apareceu uma frase que não deveria estar ali:
Senha Inválida.

Como andava com a cabeça meio esquisita, volta e meia esquecia alguma coisa, coisas pequenas sem importância mas que iam se somando à outras, e mais outras, ao ponto de começar a se fazer notar, uma luzinha de emergência acendeu. Respirou fundo. Talvez tivesse mesmo se confundido. Voltou à máquina relembrando a senha que há pouco funcionara perfeitamente na transação feita pelo celular. Tic tic tic tic tic tic.

Senha Inválida: Se errar novamente o cartão será bloqueado.

Com a certeza que sua senha era aquela, digitou com mais força e energia. Tic tic tic tic tic tic.

A moça da caixa aguardava pacientemente. As pessoas de pé na fila com bolsas e carrinhos mudaram o apoio do pé. Dona Renata olhava firme para o visor da maquininha sem desviar os olhos. Lá fora o mundo passava.

No visor… Cartão Bloqueado.

Ela ficou pasma.
Quem era o culpado? Poderia brigar com quem? Para quem transferir a culpa? Ralhar com o gerente? Ligar furiosa para o Banco? A senha ERA AQUELA com certeza, acabara de usá-la no celular!!! O gerente veio, levou as sacolas para uma mesa afastada dali enquanto madame, ainda sem compreender o que havia acontecido, ia explicando que acabara de voltar de casa pela segunda vez pois da primeira trouxera por engano o cartão do metrô. O gerente nem prestou atenção. Tanto melhor, se tivesse compreendido o que ela lhe dissera teria achado que era ainda mais louca.

Se perguntando qual seria a mensagem que o universo tentava lhe passar com tamanha confusão, saiu de novo à rua em direção ao prédio a fim de buscar o OUTRO cartão e dinheiro para qualquer OUTRA eventualidade. Decidiu também fazer uma transação eletrônica pelo celular para se certificar que o cartão estava mesmo bloqueado. Transferiu 10 reais para a filha, tudo normal. Aproveitou para saber do banco o que estava acontecendo. Ligou para o SAC. Foi andando enquanto fazia a ligação par aproveitar o tempo da caminhada.

Na ligação a secretária eletrônica não chegava ao ponto, se estendia muito além do que era esperado. Para quem queria fazer um cancelamento, pedir informação ou fazer uma reclamação tinha de ouvir uma gravação com opções de outros telefones disponíveis para este ou aquele cliente, dava informações sobre a conta a pagar, opções de pagamento e saldo restante do cartão de crédito, e voltava ao menu repetindo três vezes as três opções oferecidas. Porque andava e tinha tempo para o inútil, deixou o Viva Voz ligado, atenta apenas ao atendente que poderia surgir a qualquer momento.

Eduardo.

Madame explicou o que acontecia, desde as transações bem sucedidas com o celular ao bloqueio do cartão. Ele investigou e disse que não tinha havido tentativas de compra, nem que o cartão havia sido bloqueado. Dona Renata agradeceu, despediram-se e aguardou a pesquisa de satisfação enquanto entrava no prédio. Aproveitou para contar ao porteiro o que havia acontecido fazendo graça da situação, e ainda estavam rindo quando madame respondeu à pesquisa apertando o botão 1. Percebeu então o erro que cometera, era a opção Totalmente Insatisfeita. Não havia como retornar ao menu principal. E logo o atendente Eduardo, tão prestativo e educado… Não podia deixar isso passar batido, era preciso consertar o erro.

Enquanto o elevador subia, resignou-se a não fazer nada. Lá dentro o sinal seria fraco para entrar de novo em contato com o SAC. Entrou no apartamento, a cadela veio fazer festa, pegou o outro cartão e dinheiro na bolsa, deu uns afagos na bichinha e saiu de novo. Na portaria, deixou as chaves com o porteiro já preocupada com o que andava lhe acontecendo. Era melhor prevenir. Ligou para o SAC enquanto descia a rua rumo ao supermercado outra vez.

Ouviu tudo de novo. Seu saldo, as opções de pagamento, os telefones úteis, as opções de atendimento,… Por fim a atendente veio ao telefone e Dona Renata explicou tudo de novo. Não, não tinha anotado o protocolo do atendente Eduardo, mas até teria como localizá-lo pois sempre gravava as ligações. Tinha como ver no aplicativo que horas havia falado com ele, e lá estava: 16:59:25. Por ali talvez o SAC pudesse consertar o erro da avaliação. De consciência limpa, parou em frente ao supermercado.

Por algum motivo lembrou-se que a Mega Sena estava acumulada de novo. Do outro lado da avenida tinha uma lotérica, e nesse momento ela ainda estava sem as sacolas pesadas nas mãos, e como quem não arrisca não petista, era melhor ir antes de passar no supermercado. Quando pensava na possibilidade de ganhar a Mega (uma em cinco bilhões) um ônibus parou no ponto com seus números enormes escritos na carroceria. Decorou-os rapidamente e atravessou a rua aproveitando o sinal vermelho. Não era véspera de jogo, a lotérica estava quase vazia pois as pessoas só apostam no dia do sorteio esticando-se em filas sem fim. Preencheu o cartão, recusou um bolão extra e pagou com uma nota de 10 reais.

Entrou no supermercado.

“Seu” Rai estava logo ali arrumando os carrinhos. Não reconheceu Dona Renata que então lhe explicou o problema. Lembrou-se. Foram até a maquininha e a madame aproveitou a proximidade da caixa que a atendera para explicar que o problema era da máquina deles, que falara com o banco e nem houvera tentativa de compra. A moça completou: os outros cartões estão passando normalmente. Para Dona Renata isso não foi bom, a voz alta da caixa a deixou numa situação embaraçosa. Mas ela ainda se mantinha altiva no convencimento de ser a dona da razão, afinal o atendente do banco fora bem específico, o problema era da maquininha do supermercado. Passaria a responsabilidade para o gerente. Dona Renata quis pagar com o cartão “bloqueado” para demonstrar às pessoas que, por erro do supermercado, havia sofrido um constrangimento tão chato. O gerente passou o cartão do banco na máquina. Dona Renata digitou a senha, tic tic tic tic tic tic. Passou.

Viu? Pensou Dona Renata satisfeita. O problema era da máquina deles!, nem dela nem do cartão nem do banco. Enquanto o gerente pegava as sacolas ela ainda reforçou, “eu usei a mesma senha e desta vez a máquina aceitou”. E ele disse, “passou porque desta vez a senhora teclou quatro números e não seis”.

“Quatro… como é? Não, eu digitei SEIS como antes, como sempre…”

A senha com seis números é usada no Banco ou no celular. Nas lojas digitam-se apenas os quatro primeiros números. E no supermercado todas as vezes Dona Renata digitara os seis números, por isso a máquina recusara. O erro fora dela, conformou-se incomodada. Era difícil aceitar o fato mas estava engolindo esse sapo.

Pegando as sacolas ocorreu-lhe um pensamento reconfortante: dividiria o ônus com a maquininha do gerente pois se ela aceitara os seis números, e não deveria, estava errada também.

Satisfeita com a reviravolta das culpas, alisou em pensamento a aposta da Mega Sena dobrada no bolso e saiu para a rua com as sacolas de compras. Então lhe veio uma dúvida atroz, talvez devesse ter jogado os números da nota fiscal, teria muito a mais a ver do que os números daquele ônibus! Ou quem sabe então a data de nascimento do gerente e da moça da caixa? Talvez do Eduardo? Quem sabe o telefone do SAC do Banco? Não…. talvez o protocolo da ligação!!!

Mas as sacolas pesavam e ela decidiu voltar logo para casa e deixar a sorte decidir o seu destino.

 

 

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Apropriação Indébita

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A borboleta que não podia voar

borboleta 1a

A borboleta saiu do casulo mas não voou.
Caminhou até a janela da casa e lá permaneceu, grudada ao vidro.
A natureza a enganou, deu-lhe asas mas entregou-as amassadas.
O instinto lhe obriga mas o desequilíbrio é assustador, por isso não voa.
São mãos humanas que a alimentam, água adocicada com mel. E ela bebe.
Sobre a capota do carro, protegida pelo telhado da garagem, passará a noite.
Paciente, como são os animais, espera.
Talvez morra antes de descobrir sua sina.
Nunca será borboleta por inteiro.

borboleta 2a

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E assim foi.
Borboleta na noite, desprotegida, despedaçou-se.
Algum predador a atacou, findou sua breve vida.
Minhas boas intenções resultaram no esquartejamento da infeliz.
Eu, uma fadinha má.

borboleta 3

 

 

 

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O engano costurado

Entre linhas de sua teia
vive a aranha, ocupada.
Distraída com suas costuras
perdeu-se do tempo, coitada.

Passam-lhe ao largo os anos
carregados de novidades
mas ela permanece atenta
aos bem conhecidos traçados.

Ignora que há muito
entrelaçaram-se os fios
mas nada disso importa
é o igual que a conduz.

Crê-se dona da verdade
mas alienada, sozinha
é num canto de parede
que vive, a pobrezinha.

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