Protegido: Do lado de lá do Atlântico

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Tic e Tac – primeira parte

Decidi caminhar na praia. Chamei a Tina e fomos descendo a ladeira. Fazia dias que nós não fazíamos esse pequeno programa por isso a vira-lata ia muito impaciente na frente me puxando pela corda vermelha. Nem bem tínhamos caminhado dez metros vi um ninho de passarinho sobre a grama da calçada. Peguei-o nas mãos e abri um pouco a abertura para ver se tinha algum bichinho. Provavelmente fora derrubado por micos – e seja lá o que habitava o ninho – comidos, pois não havia nada lá dentro. Deixei-o encaixado entre os galhos de um arbusto baixinho, e estava me afastando quando vi um movimento dentro do ninho, alguma coisa escura, uma mariposa talvez. Abri aquela maçaroca de galhinhos e raízes com mais força, e vi um pequeno filhote de passarinho, e logo ao lado mais um! Como podiam se esconder tão bem? Talvez por isso não tinham sido comidos.

Desisti da praia, e puxei a Tina de volta para casa. Tinha de alimentar os pequenos, sabe lá a quantas horas não comiam! Retirei-os do ninho colocando-os numa bacia pequena cheia de papel macio, e fui amassar um pão com água. Com um palito consegui que comessem pois, com fome, esticavam os finos pescoços para cima abrindo o bico desesperados. Eram bem pequenos, cor de rosa, mas algumas penas já estavam ali, dentro de canudinhos, prontas para desabrocharem. 

Então, nas semanas seguintes, a cada hora eu tinha de alimentá-los. Meu medo era que pão, água e um pouco de ovo cozido não fossem suficientes para suprir as necessidades dos bichinhos, mas então, por sorte, me falaram de um alimento em pó para filhotes de pássaros silvestres, e um vizinho que iria a cidade fazer compras, me trouxe um pote. O pó misturado com água me permitia pingar com uma seringa velha diretamente nos bicos dos passarinhos, e isso facilitou meu trabalho e completou a alimentação deles.

De noite dormiam na bacia com um pano leve por cima para protegê-los de moscas e mosquitos. Para ficarem aquecidos a bacia ficava sobre um aparelho da tv a cabo ligado que emitia um calorzinho discreto. Assim se passaram os primeiros dias. 

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Fim de Linha

Juntaram-se todos no aeroporto. Eram pouco mais que quarenta e o destino estava traçado para eles. Depois de muitos contatos através da mídia, marcaram o encontro decisivo ali mesmo, no portão de embarque de aviões fretados. Vinham de todos os cantos do país e, surpreendentemente, para as demais pessoas apressadas que circulavam por ali, nenhum trazia mala ou bagagem de mão. Mudos e sem a habitual excitação de uma viagem que se inicia, seguiram um comissário de cabelos muito curtos e rosto inexpressivo até a pista onde aviões subiam, desciam, estacionavam ou eram reabastecidos. Muito barulho, mas como ninguém falava nada, não fazia diferença.

Do lado de fora de um grande galpão um avião médio, de hélices e pouco brilho, estava esperando por eles com a escada encostada na porta do aparelho. Conduzidos pelo comissário, e visivelmente nervosos, os passageiros subiram um a um  desaparecendo no interior. O comissário em terra puxou a escada para longe do avião e se retirou sem nenhum aceno ou saudação.

Dali a pouco as hélices começaram a girar, preguiçosas e cortantes, até que a velocidade dos motores deixou suas pás invisíveis, apenas duas manchas cinzentas fixas no ar, conduzindo as asas do avião. E de lá seguiram para a pista de decolagem, zunindo pelo asfalto e subindo de bico para o céu. A terra com suas pequenas casas e prédios, ruazinhas e carrinhos de brinquedo foram ficando cada vez mais distantes, e parecia que o mundo agora se resumia àquele corredor iluminado, cheio de poltronas e cabeças recostadas, atravessando ondas gasosas e brancas.

Não veio nenhuma aeromoça, e todos permaneciam sentados. A viagem prosseguiu silenciosa com um ruído discreto do ar condiconado. Alguns rostos se viravam para a janela e não há como saber o que viam, se é que viam, pois os olhares eram distantes e distraídos. Uma adolescente se levantou e foi ao banheiro. Uma mulher encostou a cabeça no ombro de um senhor e parecia cochilar. Mas a maioria dos passageiros estava tensa, e portanto, esfregando as mãos nas roupas, na testa, umas às outras, apertando a almofada do assento, fumando, raspando a unha em alguma textura, ajeitando o colar no pescoço, folgando a gola.

E lá se foi o avião pelo céu, sobre as cidades, as matas, afastando-se do mundo, parecendo deixar o planeta.

A voz do comandante estalou no microfone sobressaltando a aparente sonolência. Não deu boas vindas, não disse para onde iam nem qual temperatura fazia lá fora, nas alturas. Como falava muito baixo algumas palavras se perdiam com o zumbido do ar condicionado e de algumas tosses e pigarros, mas entendeu-se que tudo corria conforme o combinado. O dinheiro enviado por todos pagara o velho avião. O rádio não funcionava direito mas isso não tinha a menor importância já que, de qualquer forma, ninguém pensava em utilizá-lo. Ele desejou que todos ficassem tranquilos nesta curta viagem, preparando-se para o destino almejado, pelo qual tinham lutado tanto, vencendo a explosão da mídia e a rejeição do mundo. Ali estavam eles, quarenta e três suicidas em potencial, rumo à morte pré determinada, apontada e escolhida em conjunto. Um grupo silencioso e compenetrado despedindo-se de seus problemas, doenças e tormentos, dívidas e neuroses, desilusões e sofrimento.

Nesse instante o comandante ficou quieto. Após um longo intervalo anunciou em voz firme que havia um problema. O dinheiro aparentemente não fora suficiente para o combustível, eles não chegariam lá. Teria que ser mais cedo. 

O povo se revirava nas poltronas, todos falando ao mesmo tempo, gestos e vozes foram subindo e preenchendo os espaços. A confusão se armava, em pouco tempo a histeria parecia dominar alguns passageiros. Talvez não conseguissem atingir o mar e o mergulho final no oceano. A passagem para o outro mundo de repente pareceu a todos incerta e insuportavelmente amedrontadora . Eles queriam a explosão e o mar.

O comandante continuava falando já que não havia pessoal de bordo para orientar os passageiros. Pelos instrumentos o avião cairia quinhentos quilômetros antes da costa, às seis e vinte da tarde, naquela quinta feira de céu claro de julho. Um senhor irrompeu na cabine de comando e a conversa se ouvia no corredor de poltronas. As vozes silenciaram num instante para acompanhar o bate-boca eletrônico. Discutiram os procedimentos viáveis e a situação do aparelho, um aparentemente discordando do outro até que o comandante reassumiu o microfone e anunciou que tentariam um pouso de emergência já que os pneus eram velhos demais e quase nada funcionava  naquela sucata voadora. Ouviu-se o homem gritando furioso mas aí já uns tantos se levantavam das poltronas tomando partido deste ou daquele, tentando todos ao mesmo tempo entrar na pequena cabine do comandante. O pandemônio parecia tomar conta. Ninguém se entendia mais.

Até que o avião deu um tranco. E mais outro.

Os gritos das quarenta e três pessoas não conseguiam atravessar as paredes metálicas, espremendo os oitenta e seis tímpanos, aumentando o pânico e o tumulto. Tropeçavam, caíam, agarravam-se uns aos outros.

O comandante, ainda no comando da nave, empinou o bico, levantou os flaps e compensou com os motores a descida entre trancos e pulos da velha carcaça. E no meio daquela confusão e gritaria, derrubando postes e arrastando telhados, espatifou a barriga do aparelho sobre uma pequena vila. 

Não explodiu, não se partiu.

A porta foi aberta por dentro e os rostos suados e angustiados dos passageiros veio para o ar morno do fim de tarde. Uns ajudando os outros, saltaram para o chão. A adolescente começou a chorar compulsivamente puxando os cabelos, xingando o destino e se afastou dali procurando um telefone público. Uns se dirigiram às pessoas que se aproximavam para ver o acidente. Dali foram beber alguma coisa no barzinho da rua sulcada pelo corpo da aeronave.

Não demorou muito a mídia chegou. As entrevistas se sucederam por dias a fio. Alguns dos decepcionados passageiros iniciou, pelas mesinhas do bar, as discussões em torno de uma nova tentativa, um ônibus talvez, nas Cataratas do Iguaçu. Outros voltaram para casa e retomaram suas vidas, perdoando ou perdoados. Dois se casaram. Um deu um tiro na cabeça. O comandante comprou o bar integrando os restos do avião às instalações do estabelecimento. 

Uma lancha que fora esperar o mergulho do avião no oceano, afundou e ninguém foi encontrado.

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#4

Protesta na Folha o Sr. Henrique Cunha, de Fortaleza, quando denominam um período histórico difícil, de negro, e não obscuro. Sente sua etnia negra ferida esperando um tratamento mais respeitoso e digno. Por favor, não digam num susto que fiquei branca como um fantasma!

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Um dia na vida de Eleonor Fuentes – das 20 às 21:30hs

Assim que Leonardo voltou para a sala de pijama e roupão, Eleonor foi tomar seu segundo banho do dia levando a camisola e um par de havaianas. Bem, estava frio, então desistiu dos chinelos e pegou um par de meias e seu croc branco. O banho antes de deitar era quase um ritual, precisava dele para dormir bem. A água do chuveiro estava quentinha, deixou-se relaxar. Observou pela janela que a fraca chuva da manhã retornara. Enquanto distinguia as luzes das traineiras que de noite pescavam na baía, o grilo falante tirou-a do morno torpor que a envolvia, gritando dentro de sua cabeça: “Feche a água! Economize o gás”! Obediente, saiu de debaixo do chuveiro e foi se secar. Terminadas as operações pós-banho e com o banheiro arrumado, voltou para a sala. Leonardo dormia na begère, alheio às notícias do dia. Eleonor chamou a cadela e foram para o jardim, seria o último xixi até o dia seguinte, e a bichinha já conhecia a palavra de ordem, “pipi, pipi”. Depois de trancar a casa e certificar-se que a luz do estacionamento dos carros estava acesa, Eleonor tomou seu último remédio do dia, encheu um copo de água e foi deitar para ler até o marido chegar.

No quarto, os aparelhos que atraem e sugam mosquitos estavam ligados há pelo menos duas horas, as janelas com as venezianas e vidros fechados, apenas um aberto para entrada de ar mas protegido por tela. O aparelho anti-mosquito mais barulhento foi logo desligado, o outro foi pro chão. Se por acaso algum mosquito sobrevivesse teriam ainda o mosquiteiro sobre a cama para cobri-los e evitar picadas.

Enquanto Leonardo não vinha, ela saboreou vários capítulos recostada em seus dois travesseiros. Na sala, ao acordar, ele desligaria a TV, protegeria sofás e poltronas da vira-lata e apagaria as luzes. Bem, pelo menos era isso que Eleonor esperava dele. Mas tudo era possível. Antigamente ele não perceberia nada, nem cachorro sobre o sofá nem luzes acesas, mas agora era outro. Seus maus humores rareavam e seus momentos de raiva incontrolada também. Estava mais manso, um pouco mais atento ao seu redor, com um olhar que permanecia nela algumas frações de segundo a mais, como se realmente se importasse. Talvez fosse a idade, as experiências vividas, a possibilidade de algum dia se tornar dependente e tudo isso o fizesse ver as pessoas de um jeito diferente, ou a possibilidade de estar errado… Seja como for estava mudando, e para melhor. Por isso mesmo Eleonor pensou o que poderia estar mudando nela também. Talvez estivesse, ao contrário dele, mais impaciente, mais ríspida, devolvendo as palavras que a machucaram no passado. A idade acertava as contas com as pessoas, enquanto dava para uns, tirava de outros, e todos tinham que encontrar seus encaixes novamente, rever suas atitudes, senão desencaixariam de vez e a vida em comum seria insuportável.

Sempre aprendendo. Até o fim. Graças a Deus, senão a velhice seria um tédio.

Leonardo entrou no quarto e deitou na cama, sobre os lençóis. Protegeu os olhos com um tapa-olho evitando a luz da cabeceira de sua mulher. Não falou nada, ficou ali quieto, com as mãos descansando sobre a barriga. Não demorou muito e sua respiração se alterou, ficando mais profunda. Um ronco explodiu aqui, outro ali, e ele se remexeu incomodado com seu próprio barulho. Ao lado, Eleonor o observava com o livro aberto sobre o peito. Não demorou muito ele parou de respirar – estava em apnéia – como sempre acontecia. Ela esperou até que a respiração finalmente voltasse, ofegante e rápida, compensando o tempo em suspenso. Devolveu o livro à cabeceira, apagou a luz e deitou sobre o peito do marido acompanhando sua respiração. Quando não o ouvia respirar, cutucava seu ombro e ele involuntariamente voltava a respirar. Fez isso umas dez vezes até que pediu que ele deitasse de lado.  Sonolento, virou de costas para ela, desta vez sem intervalos no inspirar-exalar. Mais tranquila Eleonor voltou para seu lado da cama, abraçou seus travesseiros apertando-os contra o corpo e agradeceu quem quer que fosse que lhe fizera chegar até aquele momento, aos deuses, ao anjo, ao destino, ao marido, à família, ao céu, à natureza, para tudo convergir àquele momento, para chegar ali daquele jeito. Fechou os olhos.

E lembrou que esquecera de colocar o aparelho dos dentes! Pulou da cama e foi ao banheiro sem fazer barulho. Aproveitou para andar pela casa e apagar luzes que Leonardo esquecera acesas.

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Um dia na vida de Eleonor Fuentes – das 14 às 20hs

Leonardo foi lavar a louça. De certa forma ele achava que assim dividia os afazeres da casa, mas era a mulher que acabava cuidando de praticamente tudo sozinha. A lista era longa. Mesmo pedindo que ele cuidasse do lixo era quase impossível que o fizesse. Esquecia o dia do lixeiro, tirava o saco mas não limpava os latões, não colocava sacos novos, ficava perdido e pedia ajuda. Quanto ao jardim, era mesma coisa. Sabia colher mas mesmo assim algumas vezes era Eleonor quem precisava sair e apontar a erva certa, ou ir buscar para ele uma vez que já se encontrava compenetradíssimo na cozinha. Ele até se prontificava a ajudar mas precisava de alguém que trouxesse as ferramentas, a escada, preparasse o fio de extensão, medisse, lhe passasse os parafusos, a chave de fenda, e por isso, muitas vezes, Eleonor acabava resolvendo o problema sozinha.

Depois que ele tomou seu café com um pequeno pedaço de Bolo de Coco Gelado, terminou de lavar o que estava na pia e se retirou. Eleonor preparou a comida da vira-lata e foi terminar o serviço na cozinha que passara ao largo por Leonardo: retirar os pedaços de comida dos ralinhos da pia, lavar as cubas, passar esponja e pano no fogão, guardar o que estava limpo, tirar migalhas com pano úmido por toda a bancada e varrer o chão.

Pensou em deitar novamente e ler um pouco mas percebeu que o dia clareara apesar da chuva que cairia de novo no final da tarde, e querendo caminhar um pouco, chamou a cadela e desceram juntas o caminho até a praia. A volta, ladeira acima, muitas vezes a fazia desistir e descer de carro. Mas desta vez foram andando. Já na escada da praia a cadela ficava mais excitada e, uma vez sem a corda, corria pela praia latindo e chamando para brincar. Ou então entrava na água calma, sem ondas, e baixava o corpo até mergulhar a barriga e refrescar-se, como qualquer velha senhora na praia de Grumari, sentada no rasinho, satisfeita em estar na água o suficiente para se molhar evitando qualquer situação constrangedora.

Eleonor fez o que sempre fazia toda que vez que descia à praia. Olhou para baixo e saiu caminhando. Esperava encontrar o presente que Yemanjá sempre guardava para ela. Às vezes um, às vezes dois ou mais. A alegria era essa, a caça ao tesouro. Uma casca inteira da carapaça de um siri, a garra laranja de um caranguejo, uma concha perfeita, um pedaço de tronco de formato curioso, sempre havia algo. E claro, os presentes dos humanos que recolhia pacientemente… tampinhas e sacos plásticos, fraldas, fivelas, chinelos, garrafas, pedaços de vidro, barbante, canudos. Ia tudo para o lixo, três caixas plásticas penduradas em troncos em alguns pontos da praia. Era seu jeito de agradecer o que a rainha do mar lhe oferecia.

No final da praia, entre pedras, protegida do vento e de ondas mais fortes, erguia-se a Árvore da Vida. Uma pequena árvore que, por anos, passara despercebida por todos até que uma jovem mexicana, em visita ao local, reconheceu a espécie e explicou de quem se tratava. Uma árvore que suga a água salgada do mar, sua os cristais pelas folhas e devolve pelas raízes expostas uma água que atrai diversos animais, formando habitats perfeitos para eles. Suas sementes caem e navegam semanas, meses ou anos pelo mar até encontrar um lugar onde decidem florecer. Ninguém sabe quando nem porque, apenas acontece, e um dia, em algum lugar, a semente começa a germinar.

De volta a casa, com algumas paradas estratégicas para descansar na subida, Eleonor tirou o sal e a areia da barriga e pernas da vira-lata com uma mangueira e depois levou-a para seu banheiro onde terminou de dar-lhe banho com um shampoo apropriado. Depois de secá-la com uma toalha mandou-a para a varanda, onde se secaria melhor no vento seco. E só então tomou seu banho, relaxada. Apesar do cabelo molhado iria se deitar um pouco. Esticou a toalha de mão sobre o travesseiro, deitou e fechou os olhos respirando profundamente e sentindo a paz do dia invadi-la. Havia feito tudo o que devia fazer e o que esperavam dela. Podia sossegar.

Sentiu fome. Normalmente não moveria um músculo, mas o médico a prevenira sobre enjôos por causa da medicação, e que comesse a cada três horas, por isso levantou e foi para a cozinha. Pensou em comer uns biscoitos, seria o mais rápido e o mais fácil, mas reconsiderou e pegou uma maçã da cesta. Descascou e cortou em fatias. Deitou no sofá, ligou a TV e começou a comer a fruta. Assistiu um filme no Netflix, sua mais recente aquisição. Estava completamente seduzida pela praticidade, os infinitos seriados que o sistema oferecia e a ausência de propagandas.

Já passava das 18:30 quando Leonardo reapareceu na sala. Estava a caminho da cozinha. Ele gostava de jantar cedo, como sua mãe. Aliás, por falar em sua mãe, eram muito parecidos, física e psicologicamente. O sono chegava cedo e terminava mais cedo ainda. Se pudessem, às quatro da madrugada estariam de pé. Mas não só, rodeava a alma de ambos um profundo respeito aos dizeres do povo, às superstições antigas – e novas, pois nunca se sabe, melhor prevenir. Existia neles uma reverência quase fantasmagórica diante das incertezas e mistérios que rodeiam nossa existência. 

Ela saiu do sofá e foi para a cozinha pensar no jantar. Ele disse que faria uma pizza para ambos, então Eleonor foi buscar manjericão no jardim, e ajudou a picar um tomate. Em pouco tempo estavam jantando a pizza, e assistindo um capítulo do seriado escolhido por ela. Com ele se retirando para o banho enquanto o Jornal Nacional não começava, ela decidiu checar suas mensagens e ler o OAntagonista no celular. Estava a procura de um presentinho.

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Um dia na vida de Eleonor Fuentes – 10 às 14

Entrou no quarto para fazer a cama. Não era um bom dia para lavar lençóis e toalhas mas mesmo assim resolveu fazer a troca como fazia toda segunda-feira. Jogou os usados na cesta de roupa suja para lavar quando o sol aparecesse. Esticou a roupa de cama limpa sobre o colchão acertando simetricamente a quantidade de pano para cada lado. Não era neurose não, às vezes nem fazia a cama, mas preferia deitar de noite numa bem arrumada, lençóis esticadinhos e cheirosos, sem rugas ou pregas. Isso a fazia lembrar um conto de fadas alemão onde a princesinha sentia uma ervilha mesmo se deitasse sobre uma dezena de colchões amontoados. Ela não era uma princesa mas o costume desde a infância de dormir em cama bem arrumada desenvolveu essa sensibilidade. E na idade adulta virou parte dela.

A vira-lata deitou num canto do quarto aguardando a dona. Estava com 13 anos, castrada e gorda mas aparentemente saudável, com a pelagem ainda bonita. Sua respiração era forte, de longe se ouvia, e mesmo dormindo suas orelhas continuavam esticadas para cima, atenta a qualquer ruído inesperado. Quando foi encontrada com a mãe e seus cinco irmãos recém-nascidos num ninho entre plantas no jardim da casa de campo, já rosnava para qualquer coisa estranha, e de todos, foi a única não adotada, terminando por ficar com o casal comovido com o local do nascimento, o jardim de sua própria casa.

Assim que a Eleonor saiu do quarto a vira-lata se levantou e a seguiu. Foram para o jardim apesar  da chuva fraca. A cadela resistia sair da casa, preferia ficar na porta aguardando, mas por fim, obedecendo ao chamado insistente da dona, saiu e foi cheirar o gramado. Assim que terminou de fazer xixi, correu de volta para dentro com medo de ser deixada do lado de fora. Eleonor foi checar as plantas. Todos os dias ia ver como estavam as mudas, se havia alguma fruta para ser colhida, se precisava podar algum ramo, arrancar um mato, colher alguma flor, colocar uma estaca para segurar um tronco frágil. Mesmo em pequenas quantidades a festa era grande a cada limão, mamão, couve, grumixama, salsinha, pimentão, o que estivesse maduro e pronto para ser colhido. Logo, fotografias do iPhone seriam espalhadas pelo Whatsapp e Instagram para mostrar ao mundo sua colheita e esperar pelos comentários elogiosos.

De volta a cozinha tirou do freezer a galinha ao curry que fizera três meses antes. Boa opção pro almoço. Ainda havia arroz branco, berinjela e abobrinha assadas no forno e um resto de farofa. Seria suficiente. Leonardo cuidava de sua própria comida há alguns anos. Cozinhavam juntos, cada um com a sua panela e sua receita. Vegetariano e com restrições ao sal e açúcar, aprendera a cozinhar para si, e quanto mais aprendia mais se assustava com cozinhas desconhecidas e todas as possibilidades de infecção e falta de higiene.

Apesar do tempo chuvoso Eleonor colocou fronhas e camisas na máquina de lavar. Quando o sol saísse lavaria o resto.

Na varanda verificou a travessa baixa de plástico onde colocara água açucarada para as abelhas. Elas ainda não tinham descoberto que ali podiam beber à vontade, talvez porque tudo fosse branco. Eleonor voltou para a cozinha à procura de alguma coisa de cor vermelha. Um medidor de plástico era da cor certa e colocou dentro da travessa, mas mesmo assim, passado algum tempo, os insetos não vieram. Deitou junto à travessa uma flor vermelha já meio seca do vaso da sala, mas as abelhas ainda não se sentiam atraídas. Pelo menos naquela hora os beija-flores bebiam dos bebedouros sem serem incomodados, e ela se sentiu muito gratificada por isso. Danem-se as abelhas.

Esquentou seu prato no microondas enquanto o marido levava ao forno a travessa de bacalhau que estava preparando com batata, cebola, pimentão, e azeite. Normalmente um comia antes do outro pois os pratos ficavam prontos em horas diferentes mas mesmo assim sentavam juntos, iam conversando e assistiam às notícias na TV. Debaixo da mesa a vira-lata esperava pacientemente. Sabia que depois alguma coisinha cheirosa seria misturada à ração pois cachorro também é gente.

Havia uma conta a pagar e uma transferência por fazer e Eleonor aproveitou para resgatar o valor necessário antes de ir descansar no quarto. O banco faria o pagamento que estava em débito automático e precisava haver saldo… fez também a transferência para a conta poupança de sua faxineira que viera limpar a casa dois dias antes. Checou o cartão de crédito a poucos dias do vencimento e estranhou o valor alto mas uma olhada no histórico de compras demonstrou que havia gasto bastante com remédios, gasolina e exames. Era pagar ou… pagar.

Deitou na cama, acendeu a luz da cabeceira e pegou seu livro. Leu alguns capítulos, a história não a deixava parar de ler, até que Leonardo também chegou para se esticar um pouco ao seu lado. Tentou dormir enrolando-se numa colcha pois estava frio, mas o sono não veio, só deu para fechar os olhos e descansar. Quando por fim desistiu e levantou, Leonardo já estava de volta ao escritório, lendo. Uma olhada pela fresta da porta que dava para a varanda… e lá estavam as abelhinhas pretas, tinham descoberto o prato com a água doce. Quem sabe agora deixariam os beija-flores em paz.

Antes de sair do quarto Eleonor pegou o celular e foi checar as mensagens. Com um sorriso de lado viu a chamada do antagonista. Estavam pegando mais um corrupto disfarçado de democrata.

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