Felizes para sempre

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Olha, eu não sei como é com você mas algumas coisas que vejo pelo mundo explodem mil ideias na minha cabeça. Para este blog separei algumas fotos do meu Banco de Imagens pois me passam um comovente sentimento de carinho e aconchego.

Já não estaremos aqui e estes seres enormes continuarão imóveis e seguros do que sentem um pelo outro, um instante que congelou no tempo assegurando existir a frase: … “e foram felizes para sempre.”

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História – Parte 1

Nasci no dia 8 de março de 1955, no Rio de Janeiro, caçula do jovem casal Mario e Silke. Por falta de opções desenhei com coco nas paredes na época que era mantida no berço. Com o passar dos anos o material diversificou, natais e aniversários vinham repletos de cadernos sem pauta e lápis coloridos.

Nessa época morávamos na casa da minha Nonna Elza, de frente para a praia, no Leblon. Uma casa de pedra com uma enorme amendoeira no jardim dos fundos. Não lembro de muita coisa do interior da casa, mais do jardim. Foi no canteiro brincando de carneirinho que mordi umas folhas venenosas. Quando se certificaram que eu não havia engolido nada, me fizeram tomar muito leite para aplacar a ardência na boca. Lembro dos rostos dos meus pais, preocupados.

Ah, e lembro também da enorme pipa vermelha que fiz com meu pai na garagem da casa para soltar na praia.

Passávamos as férias em Teresópolis, cidade na Serra dos Orgãos, na casa dos meus avós maternos, Richard e Marta. Uma linda e grande casa que atravessava todo o quarteirão com seus gramados, árvores enormes e um mar de pelo de urso. Nas tardes frias, de garoa e russo, as horas passavam desenhando, recortando bonecos, fazendo cenários para o teatrinho de fantoches. A molecada reunida apresentava peças de teatro usando as fantasias de carnavais passados amontoadas num gavetão do grande armário do térreo, baú de felicidade!

Nos dias bonitos eram as brincadeiras de clubinho atrás da cerca viva, ou a casa na árvore (umas tábuas mal pregadas nos troncos generosos de uma – hoje eu sei – belíssima Castanheira).

Mas nada se comparava aos cavalos de aluguel! Motivo para levantar da cama de manhã cedo naquele frio de julho, enfiando a calça jeans por debaixo da coberta, correndo para a sala de jantar no andar de cima e engolindo um café da manhã na maior pressa pois no portão estavam eles, nossa razão de viver, nossos amores, aqueles belíssimos cavalos de aluguel! – hoje eu sei – pangarés de todas as cores e alturas, mas ainda assim saudáveis o suficiente para nos aguentarem por uma hora ou mais, em passeios distantes ou apenas umas voltas pela cidade, o dinheiro guardado que decidia.

Bem, as lembranças são um novelo sem fim, se ficar desenrolando não chegarei ao fim. Pelo menos enquanto minha memória estiver lubrificada.

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Livro da Vida

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Um dia tudo o que vivemos fará parte do livro que contará a nossa história, e desejo que o meu seja um livro bem gordo de capa dura, manchado por dedos sujos de vinho, leite e chocolate, cheio de recortes saindo pelos cantos, anotações e rabiscos, receitas e desabafos, manchas, fotografias e desenhos, florzinhas secas, bilhetes de teatro, cinema e shows musicais, tudo anotado em caligrafias rebuscadas ou apressadas, à lápis, caneta, nanquim ou pincel onde passagens que nos tiraram do sério de repente sejam relatos de rolar de tanto rir, em que outras rolem as lágrimas, que acelerem o coração de quem lê, que faça suspirar, adormecer. Tudo ali anotado, desde grandes dores e todas as alegrias, até coisinhas pequenas do dia a dia, resmungos e piadinhas infames.
Tudo que passa por nós e nos leva junto pode se tornar uma ótima história. Basta querer contá-la.

Eu quero que seja grande e curioso o livro da minha vida.

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O Primeiro Lagarto

A história do teiú foi assim. Sabe Teiú, aquele lagarto gordo e grande que existe pelo Brasil afora? Pois lá vínhamos nós, em 1994, pela estrada entre Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu, no meu Kadett. É uma estrada no meio do mato, naquela época mal asfaltada e cheia de curvas. De repente numa curva vejo o bichão, no meio da rua, arrastando-se para longe do acostamento onde um grupo de pessoas o esperava com pau na mão. Nem deu para pensar, encostei o carro bem pertinho dele, abri a porta, peguei-o pelo rabo e passei pra trás, pro colo da minha filhinha de 12 anos. Graças a Deus ela não estranhou o bicho, abriu a tampa de trás e o colocou no porta-malas. Seguimos viagem meio assustados, meio excitados e… o que fazer agora?! Qdo chegamos na obra confesso que fiquei com medo de abrir o porta-malas e o bicho voar em cima da gente! Gabriela que não estava com medo abriu e pegou o bicho pela nuca (lagarto tem nuca?). Ele abria a boca com uma expressão bem zangada. Os operários se aproximaram com mil histórias terríveis sobre o comportamento desse animal: rabo fortíssimo que corta pernas, mandíbulas cheias de dentes pontiagudos, doença de pele… Mas nas mãos da menina percebemos que o coitado não conseguia mexer as pernas de trás! Provavelmente resultado de uma paulada ou atropelamento. Bem, diante dessa constatação nossa relação mudou completamente!
De um temível Tiranossauro Rex passou a um bichinho indefeso e machucado.
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O teiú não podia andar direito, morreria se o soltássemos no mato então decidimos levá-lo a um veterinário em SP. Encontrei um especialista que depois de examiná-lo e medicá-lo anunciou que o lagarto era UMA lagarta, logo batizada de Francisca. Ela morou conosco durante uns meses no apartamento do décimo-terceiro andar, com tratamento vip: fisioterapia nas pernas de trás e comidinha na boca. Seus pratos prediletos eram carne de galinha cozida e ovo cru.
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Pra quem não sabe, a língua comprida dos teiús não serve só para comer. É um instrumento para cheirar e reconhecer as coisas, por isso um dia Noenio chegou do trabalho e me encontrou deitada no chão “conversando” com Francisca. Ela esticava a língua pra mim e eu pra ela. Tenho certeza que fizemos contato!!! Ele achou a cena muito pitoresca pois até hoje conta e todos riam muito. Sinceramente… meu objetivo ali era puramente científico!
Então, com comidinha na boca, conversas de língua e sem predadores em volta, Francisca passou a ter uma convivência tranquila conosco. Gostava de ficar no colo assistindo tv ou arrastava-se pelo apartamento procurando lugares baixos e escuros como embaixo do sofá ou atrás de uma cômoda onde ficava horas, provavelmente dormindo.
Mas um dia tive de tomar uma decisão difícil, íamos viajar e ela não poderia ir conosco. Além do mais é proibido manter animais silvestres em cativeiro.
Uma coisa me angustiava. O problema nas pernas traseiras com frequência a deixavam de barriga para cima e só com nossa ajuda ela conseguia desvirar-se. Mesmo assim resolvi entregá-la a um zoológico. Escolhi um pequeno e arrumadinho perto de casa, o Parque das Hortências, em Taboão da Serra. Ela foi para um espaço aberto com outros lagartos (mal encarados, devo dizer) mas eram da mesma espécie, certamente ficaria bem. Umas semanas depois quando voltamos da viagem fui ao zoo preocupadíssima para ver como ela estava. Me debrucei sobre o murinho do tanque e de repente a vi, entre umas pedras, de barriga para cima!!! Indecisa, sem saber o que fazer, foi com a torcida dos meninos que corriam por ali que pulei pra dentro do tanque e desvirei minha Francisca. Mas, para minha decepção, ela não pareceu me reconhecer. Nada, nem um olhar, uma saudade, um sinal. Nada de nada.
Por isso pude voltar pra casa, preocupada sim mas sem sofrimento. De qualquer maneira ela não caberia na minha bolsa.
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Unintentional Art

UNINTENTIONAL ART

ferrugem sob tinta

ferrugem sob tinta

A arte não-intencional, ao meu ver, pode ser reconhecida em duas manifestações: a que se apresenta tal e qual a natureza lhe confere e é reconhecida como sublime pelo observador, e a que, pela ação espontânea do homem, deixa rastros identificáveis e manipuláveis.

Não coloco neste ensaio as teorias pitagóricas sobre a harmonia da natureza, a “nautilus pompilius,” “razão de ouro,” “chifre de Amon” etc. Me refiro aqui às deformações e modificações sofridas por todas as coisas pelo tempo ou agentes externos, naturais ou não, que são para o observador uma fonte artística.

A partir dela ele intervém, simplesmente registrando e documentando a imagem, ou manipulando-a como matéria-prima.

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Maria-Preta

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Chamam de Chopi, Maria-Preta, Pássaro-Preto, Graúna mas o caso é que este passarinho apareceu do nada ciscando insetos na grama do meu jardim, de lá para meu ombro e assim ficamos uma semana, ele empoleirado em mim e eu alimentando o bichinho no bico como se filhote fosse. Não sei de onde veio, de quem era, para onde o destino o levará mas uma vez adotada como mãe tive de aceitar este encargo. Com eficiência, que é meu modo de assumir responsabilidades.

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Nas duas primeiras noites dormiu sentadinho na borda de uma cesta de pão, em cima da geladeira. Mãe selosa e ainda insegura, achei melhor protegê-lo dentro da casa. Entretando, passando os dias e vendo-o voar pra cá e pra lá com desenvoltura e relacionando-se bem com os outros pássaros, deixei que ele mesmo decidisse onde passar a noite. Ao entardecer, voando para meu ombro para receber a última refeição do dia, despedia-se voando para a árvore mais próxima sem voltar mais. Até o dia seguinte.

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É só eu sair de casa ao acordar e lançar uns beijos no espaço que ele aparece, um par de asas pretas direto na minha direção, agarrando-se aos cabelos ou pousando desajeitadamente no meu ombro. E entramos em casa. Entro devagar pois sei que não gosta dessa passagem do claro para o escuro, do aberto para o apertado. Então, se devagar, ele continua pousado mas ainda assim com as penas baixadas bem lisinhas junto ao corpo, e os olhos pretos arregalados.

Maria-Preta Comida

Vamos para a cozinha onde dou no seu bico pedaços de pão molhado. Ele bate as asas e pia como filhote mas é adulto, o mimado. Entro na dele até o papo ficar cheio. Pão com água é o que gosta mais com alpistes intercalados às refeições principais. Banana nem tanto, come mas relutando desconfiado. Prefere neste caso mamão. Aí o levo para o jardim onde espalho alpiste e canjiquinha pelo muro onde todos vão comer juntos naquela hierarquia incompreensível, rolinhas em continência afastando pardais, bem-te-vis assustando canários-da-terra e pássaros-pretos disputando entre si o melhor grão.

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Numa tijela com água minha Maria-Preta toma banho. Primeiro experimenta a profundidade. Vai com um pezinho esticado até encostar no fundo e certificar-se que é seguro. Tenta uma, duas vezes, até ter certeza. Então entra e começa o banho espirrando água pra todo lado, claramente divertindo-se bastante. Findo o banho, hora de secar-se ao sol. Sai da banheira um pássaro lamentável, magro e desajeitado, penas desalinhadas, pescoço fino e comprido. Em volta da tijela tudo molhado. Então passa o bico pena por pena, sacudindo-se, desequilibrando-se, num balé cômico!

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Mais tarde, já seco e cansado de tantas atividades, senta-se no meu braço e ali se acomoda fazendo-se em bolinha macia, fecha os olhos e dorme, leve e entregue aos meus cuidados. Eu, comovida com tamanha confiança, permaneço imóvel acessando meu computador com um só mão para não perturbar-lhe o sono. É uma soneca curta. Em alguns minutos desperta e o levo para fora para onde voa e some. Até ficar com fome e voltar pro colo da mãe.

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#3

Dobrei o tronco magro e jovem de um Eucalipto para alcançar as folhas e amassei algumas na minha mão. O cheiro abriu uma passagem no tempo e me jogou que nem um raio de luz no passado. Queria perpetuar a sensação inebriante que me encharcava como chuva mas a viagem só acontecia na primeira inspiração. As seguintes resumiam-se num leve e agradável perfume. A mágica durava pouco.

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